Moda sustentável

Roupa: tipos de fibras

Quando comecei a ter alguma consciência das coisas que comprava/consumia, não sabia bem como distinguir os tipos de fibras presentes na roupa: fibras naturais e sintéticas, quais as vantagens, características, etc. Antigamente, só sabia que fibras naturais eram mais caras, que a roupa ficava logo amachucada e pouco mais, por isso, foi um longo percurso até aqui ahaha. Este artigo, vai ser só uma pequena, e simples, introdução ao tipo de fibras e ao que eu prefiro ter. Já li várias coisas sobre o impacto da produção de várias fibras e, honestamente, ainda não cheguei ao veredito final lol. Por isso, irei continuar a aprofundar o assunto e, eventualmente, escreverei sobre isso noutra altura.

Antes de começar, gostava de, mais uma vez, realçar: para mim, só há uma verdade transversal a qualquer questão de consumo sustentável: comprar APENAS o que precisamos(1) é a atitude mais sustentável que podemos ter. Depois, dentro desse “apenas” podemos (e devemos) tentar fazer a melhor escolha possível, mas, a redução do consumo ao essencial, por si só, é, provavelmente, a mudança com maior impacto que podemos fazer (e acessível a todos).

Agora, vamos ao tema!

Roupa: tipos de fibras

Os tecidos são compostos por fibras. Essas fibras dividem-se em 3 grupos: naturais, artificiais e sintéticas.

As fibras naturais, como o nome indica, existem na natureza. Elas são biodegradáveis compostáveis(2). São obtidas através de plantas ou de animais. No geral (pois, cada fibra têm as suas particularidades) são mais respiráveis, agradáveis ao toque, absorventes, têm tendência a amachucar, desbotam com mais facilidade, podem encolher, são menos resistentes, são propícias a ser atacadas por traça e bolores.

Exemplos/nomes(3): algodão, linho, seda, lã, cânhamo, kapok, angorá/mohair, cachemira, merino, alpaca, sisal, rami, juta…

As fibras artificiais são obtidas através de um polímero natural, geralmente a celulose. De uma forma simples e resumida, têm base natural, mas passam por um processo artificial para se transformarem em fibras têxteis. Não existem naturalmente, como as anteriores. A maioria, em termos de toque, são agradáveis como as naturais, amachucam, mas são resistentes a traça e bolores. Normalmente, são tecidos leves. São compostáveis.

Exemplo/nomes: viscose/rayon, decora, fibro, liocel, acetato, modal, tricelon…

As fibras sintéticas são obtidas através da transformação do petróleo. São, na verdade, um tipo de plástico. Há uma enorme variedade deste tipo de fibras: a maioria, seca rápido, são resistentes, (algumas) conferem elasticidade, toque menos agradável (nem todas!), não amarrotam como as anteriores, não são atacadas pela traça (animal esperto, lol), nem bolor (geralmente). Nem todas as fibras sintéticas são recicláveis, o Poliéster, por exemplo, é. Não são compostáveis. Algumas pessoas, relatam alergias provocadas pelo uso de fibras sintéticas.

Exemplos/nomes: poliéster, acrilico, poliamida, polipropileno, elastano, lycra, nylon, dacron…

Atualmente, muitos tecidos são feitos de mistura de fibras (naturais, artificiais e/ou sintéticas). Isto porque, entre outras coisas (como a redução do custo) apenas a mistura confere aos tecidos determinadas características. Por exemplo, calças de ganga respiráveis de algodão (fibra natural) e elásticas (por terem elastano, fibra sintética). Os tecidos de mistura são praticamente impossíveis de reciclar (porque as fibras têm de ser separadas por tipo de material) e, se tiverem fibras sintéticas, também não são compostáveis.

A roupa liberta fibras durante o uso, mas, especialmente, nas lavagens. Portanto, a cada lavagem, no caso das fibras sintéticas, é libertado plástico (ou microplástico). Algumas das fibras libertadas, passam no filtro da máquina e vão para a rede de esgotos. Por sua vez, as estações de tratamento, não têm mecanismos que consigam filtrar, totalmente, essas pequenas partículas (por vezes, invisíveis a olho nu) e elas acabam por ser libertadas no mar. E assim, para juntar à quantidade de plástico que vai ter ao mar, por inúmeras vias, cada vez, que lavamos uma camisola polar estamos a aumentar esse número(4).

Como identificar?

Há muito tempo que tenho atenção à composição dos tecidos. Mas, só com a experiência, comecei a identificar, com mais facilidade, quais são naturais/artificiais/sintéticas. A quantidade de nomes que existem para designar as fibras é infinita, às vezes, é o nome da empresa que a registou, outras, aparece noutra língua. Se aprecias roupa vintage, irás reparar que o uso de termos para designar a mesma fibra é, muitas vezes, diferente do atual. É preciso estar atento e PESQUISAR. É o que faço quando vejo na etiqueta um nome que não conheço, ponho no google para saber .Tenho aperfeiçoado o tato e, às vezes, consigo distinguir a composição do tecido pelo toque, mas ainda falho MUITO. Aliás, digo, com frequência, que, um dos meus objetivos de vida, é conseguir identificar a composição de um tecido, só pelo toque. Não sei se algum dia lá chegarei, pois há fibras sintéticas muito semelhantes às naturais, e há MUITAS misturas.

Então, mas o que escolhes?

Como é de esperar, tenho preferência por fibras naturais. Não tenho roupa apenas de fibras naturais, nem adquiro sempre roupa 100% composta por fibras naturais. Idealmente, adquiriria. Mas, visto que só compro em segunda mão, a oferta é mais limitada e nem sempre encontro coisas, dentro do meu gosto pessoal e necessidade, de fibras naturais. Em raras situações, posso, a muito custo (lol), optar por fibras sintéticas, em vez das naturais, por achar que cumprem melhor o objetivo – exemplo: casaco impermeável, roupa polar para clima muito frio, entre outras excepções.

Porquê?

Como apenas consumo roupa em segunda mão, nas minhas escolhas, as questões relativas ao impacto ambiental da produção, acabam por ter pouco peso.Não estou, propriamente, a influenciar a procura de mais produtos, estou sim a influenciar a gestão de resíduos (ou, por outras palavras, a impedir que roupa se transforme em lixo quando ainda pode ser usada). Por esse motivo e por, ainda, não ter uma opinião realmente construída sobre o assunto, não vou falar do impacto ambiental da produção das várias fibras.

Opto por fibras naturais por dois motivos:

  • Saúde/segurança: prefiro não vestir plástico, por ter dúvidas quanto à sua segurança; tal como opto por armazenar comida em vidro, em vez de plástico. A lógica é a mesma.
  • No geral, acho mais confortáveis (especialmente, em clima muito quente);
  • Não libertam microplástico nas lavagens(5);

(1)ATENÇÃO: o que realmente precisamos, não conheço ninguém que precise de roupa nova todos os meses, por exemplo.

(2) apesar de ser possível compostar estas fibras, elas podem conter substancias nocivas devido a forma como foram produzidas/plantadas e tintas utilizadas. Para compostagem caseira, convém informares-te melhor primeiro.

(3)digo nomes/exemplos pois algumas fibras são, frequentemente, nomeadas nas etiquetas pela designação da marca que a registou (por exemplo, lycra é poliamida). Nos exemplos dados, há nomes que se referem ao mesmo tipo de fibra.

(4)curiosidade: este estudo, concluiu que durante a lavagem a roupa de tecido polar liberta muito mais fibras do que os outros tipos de malha.

(5) a libertação de microplástico acaba por ser “um pau de dois bicos”: se por um lado não quero usá-las, nem lavá-las, para não libertarem microplástico; por outro, sei que se forem descartadas é provável que acabem em aterros ou sejam incineradas (o que também é terrível e tóxico).

Fontes:

All about Fabrics: An Introduction to Needlecraft, Stephanie K. Holland – pág.52-74

O grande livro da costura, Vários, Selecções do Reader’s Digest – pág.56-57;

The fashion designer’s textil directory – A guide to fabrics’ properties, characteristics, and garment-design potential, Gail Baugh – pág.26-29;

Quantifying shedding of synthetic fibers from textiles; a source of microplastics released into the environment, Bethanie M. Carney Almroth,Linn Åström,Sofia Roslund,Hanna Petersson,Mats Johansson, and Nils-Krister Persson;

Biodegradation of Three Cellulosic Fabrics in Soil, Mary Warnock, Kaaron Davis, Duane Wolf, and Edward Gbur;

Emissions of microplastic fibers from microfiber fleece during domestic washing, U. Pirc,1M. Vidmar,A. Mozer, and A. Kržan;

Quantifying shedding of synthetic fibers from textiles; a source of microplastics released into the environment, Bethanie M. Carney Almroth,Linn Åström,Sofia Roslund,Hanna Petersson,Mats Johansson, and Nils-Krister Persson;

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