moda sustentável alternativas
Moda sustentável

Moda sustentável: alternativas

1.Consumo sustentável de moda: a minha história

( a primeira parte do artigo, será o relato de como tornei o meu consumo de moda mais sustentável. Se quiseres passar logo para as dicas vai para o ponto 2. 🙂 )

Para mim, a mudança de comportamento, foi gradual, pois tinha alguma consciência do impacto ambiental da roupa e das condições onde ela era feita, mas no dia que vi o “the true cost” o meu cérebro ganhou aversão a roupa nova da qual eu não sei a origem (ou sei e não “aprovo”). Não sei bem porquê, porque já tinha lido o No logo, escrito pela Naomi Klein, onde são descritas situações desumanas, relacionadas com a industria da moda. Talvez, nessa altura, eu ainda não estivesse focada em alinhar as minhas acções com os meus princípios, talvez porque fosse mais nova e mais tola, não sei ahah. Isto tudo, para dizer que, depois de ver esse documentário, o meu comportamento mudou simplesmente. Se até aí, excepcionalmente, comprava uma peça ou outra nova, desde 2016 que apenas compro/uso roupa em segunda mão. A partir daí, não pesquisei muito mais sobre o tema, pois o que já sabia era mais do que suficiente para não vacilar. Esporadicamente, leio sobre isso, ou porque estou pesquisar outras coisas relacionadas com sustentabilidade e encontro informações interessantes, ou porque alguém me pergunta alguma coisa sobre isso e preciso de aprender mais para conseguir dar uma resposta de jeito.

Inicialmente, não reduzi assim tanto a quantidade de compras, reduzi um pouco, pois a oferta não é imediata, como quando procuramos roupa nova (nem sempre encontramos o que queremos, no nosso tamanho, logo, por vezes, temos de ir aguardando e procurando). Continuei a comprar roupa com frequência, até porque os valores das peças em segunda mão permitem que a nossa carteira aguente mais. Ia comprando e vendendo roupa e, dessa forma, tinha a mesma sensação de “novidade”, que tinha antes. A parte em que tive que me esforçar mais, foi aprender a esperar, até que aparecesse o que procurava. Essa paciência, muitas vezes, acabava por fazer com que “afunilasse” os meus desejos (com a espera, percebia o que realmente queria e o que era apenas impulso). 

Com o tempo, à medida que fui aprendendo a comprar em segunda mão, como procurar, onde procurar, etc… também aprendi muito sobre mim, o valor que dou a roupa, a ser criativa, etc. Reduzi muito as compras, aprendi novas formas de adquirir e de prolongar a vida à roupa (trocas, grupos de doações, reparar/transformar peças minhas). Sou uma pessoa naturalmente desapegada, mas passei a ser ainda mais, a deixar as peças circularem, serem úteis para alguém, em vez de aprisioná-las*. Não só o facto de viver numa casa pequena, mas também o estilo e vida mais sustentável e (principalmente) a influência do minimalismo aceleraram esse processo.

A minha mudança em relação à moda, foi uma consequência da mudança do meu estilo de vida, no geral. Por esse motivo,  talvez tenha sido mais fácil para mim, não sei… Sei que não foi das questões mais difíceis de alterar no meu dia-a-dia (isso foi, e continua a ser, a comida). Esse caminho é muito pessoal e, cada pessoa, terá de perceber o que resulta para si. Estas partilhas, são muito úteis para inspirar e tirar ideias, mas não são uma receita infalível para toda a gente. 

Uma das coisas que me ajudou a não ceder a “tentações” foi ter bem claro o que me motivava. Tenho duas recordações muito presentes: a imagem de uma criança pequena debaixo da máquina de costura numa fábrica no Bangladesh (penso que no documentário True Cost) e a descrição da Naomi Klein, no No Logo, em que refere casos de mulheres a abortar, durante o horário de trabalho, por cansaço, pois eram obrigadas a trabalhar muitas horas, seguidas. Já li, muitas coisas, sobre as condições das pessoas que produzem a nossa roupa, sobre as condições medíocres das fábricas, sobre a sobre a poluição, sobre a remuneração, etc… mas estas duas recordações, por algum motivo, são as que mais tenho presentes (acho que nem foram as piores coisas que já soube, talvez esteja mais relacionado com a altura em que obtive essas informações). Sempre que estava perto de vacilar, lembrar-me disto, era suficiente para me manter fiel.  

Eu, nesta área, sou um exemplo de pessoa intransigente, lol, mas não acredito que tenha de ser assim com toda a gente. O problema não é alguém comprar, ocasionalmente, uma peça na Zara**, o problema é fazê-lo todos os meses. Provavelmente, nem todos irão ter motivação/disciplina/o que lhe queiram chamar, para não fazer compras de roupa nova, mas todos podem reduzir drasticamente essas compras. Se todos, apenas optarem por comprar roupa nova, como último recurso, apenas se não encontrarem em segunda mão, esperarem algum tempo, e continuarem a achar que precisam daquela peça, a mudança já é brutal! 

*continuo a guardar algumas coisas, que tenha a mais e que saiba que vou precisar, eventualmente, como meias, por exemplo. Mas, tento informar sempre as pessoas mais próximas, que tenho essas coisas a mais, que se alguém precisar pode ir “comprar” ao meu baú

**quem diz Zara, diz outras marcas pouco transparentes e sustentáveis. 

2.Roupa nova: o processo

Aconselho que vejas alguns dos documentários, referidos no artigo sobre a Fashion Revolution, para perceberes os problemas, gerados pela produção de roupa.

Especialmente, para quem não viu nenhum desses documentários, nem está a par, antes de falar de alternativas ao consumo “normal” de roupa, vou falar, de uma forma MUITO geral, sem sequer incluir os próprios trabalhadores, o que é preciso para termos uma peça de roupa nova:

  1. Produzir a fibra;
  2. transformar a fibras em tecido;
  3. eventualmente, tingir o tecido:
  4. transformar o tecido na peça (coser, modelar, etc);
  5. transportar até à loja;
  6. transportar até nossa casa.
  • Cada etapa deste processo, pode ocorrer em diferentes localizações (por exemplo, algodão plantado nos EUA, peças costuradas na India, vendido numa loja na Europa). 
  • Cada etapa destas, exige recursos (por exemplo, plantar algodão exige terra/espaço, trabalho para cultivar/apanhar, água/fertilizantes/etc durante o cultivo, etc).
  • Mesmo se substituirmos as fibras virgens, por fibras recicladas, a situação não é maravilhosa. É preciso recolher as peças para serem recicladas, a própria reciclagem também exige recursos (e não é assim tão simples reciclar a maioria das roupas, este episódio da linha da frente, dá uma boa introdução aos problemas relacionados com a reciclagem de roupa).
  • Em cada fase da cadeia de valor, há problemas associados, isto foi só um pequeno resumo, para estares consciente da complexidade da produção de uma peça de roupa.

3.Consumo de moda sustentável: alternativas

Deixo, algumas formas alternativas, para continuar a adquirir roupa que, na minha perspectiva, serão mais sustentáveis. Há, vários, fatores que podem influenciar esta questão (a localização, do produto em si, entre outros), mas, no geral, estas são as opções que considero “melhores”, hierarquicamente.

O melhor conselho que posso dar é pensares. E, isto, vale para todo o consumo, lol. Sei que parece um conselho parvo, mas é transformador. Questionares-te sobre a decisão de compra (preciso mesmo, qual o motivo para querer isto, vou usar, etc) e depois questionares sobre as escolhas possíveis (quero apoiar este projeto através da minha compra, onde isto foi feito, por quem, em que condições, com que materiais, etc). 

Acredito que o consumo consciente (termos plena consciência daquilo que estamos a consumir, de todo o seu impacto) é o caminho para consumirmos de uma forma mais sustentável.

1.“comprar” o que já temos

Ir ao nosso armário e ver o que não usamos: perceber se é, simplesmente, porque estava escondido e, se sim, trazer para “a frente” (as organizações de armário ajudam muito). Pensar em novas formas de usar as peças que já temos, procurar inspiração, por exemplo, no pinterest pode ajudar. Ver se há peças que possamos transformar (não precisam de ser especialistas em costura, se pensares em coisas simples, talvez uns tutoriais no youtube sejam suficientes, se quiseres coisas mais elaboradas, vai à costureira – felizmente, ainda existem!). Reparar peças que gostas, mas estão danificadas. 

2. Roupa em Segunda-mão e upcycling

Não é novidade, para ninguém, que sou uma grande adepta de roupa usada. É sustentável, barato, quase sempre mais original, entre outras vantagens. Dentro desta categoria, existem muitas formas de adquirir produtos: comprar em lojas vintage/segunda-mão, comprar online, bazares solidários locais, trocar, grupos de doações para destralhar/evitar lixo (tipo freecycle), feiras de velharias, herdar de familiares e amigos, apanhar ao lado do contentor do lixo (sei que esta não é para todos, nem encontram em todo o lado, mas tenho peças incríveis encontradas ao lado do lixo!!),etc. Se fores principiante nesta área, podes dar uma olhadela neste “mini guia” de segunda mão, que publiquei no blog, há uns meses, ou mandar-me mensagem que ajudo, no que conseguir.

O upcycling* acaba, muitas vezes, ser a solução para peças que já não servem o seu propósito e, por isso, já não podem ser usadas em segunda mão, transformando-as e dando-lhes novo (ou o mesmo) propósito.

3.Roupa nova 

Não compro roupa nova há uns anos, quando comprei as últimas peças, ainda não estava focada (nem consciente) em consumir de forma sustentável/ética. Por isso, as dicas que darei em seguida, são os conselhos que daria a uma amiga, que me pedisse ajuda ahaha.

Hipóteses (sem ordem):

  • Comprar em comércio/ a artesãos/ estilista local | Isto, por si só, pode dizer pouco sobre a roupa em si, mas em última análise, ao menos, sabem quem estão a apoiar. Normalmente, por exemplo, nas boutiques locais (daquelas tradicionais que, ainda, há nas baixas das cidades ou nos largos das aldeias) há várias peças feitas em Portugal*, de marcas mais pequenas portuguesas, e, devido à proximidade no atendimento, podem perguntar e conversar com quem está na loja, explicar as vossas preocupações e pedir que vos aconselhem produtos. Em feiras, ou falando diretamente com os artesãos online, conseguem fazer questões sobre o processo, perceber o trabalho, etc. Quem sabe se, as tuas questões, não despertam interesse dos comerciantes menos atentos para esta questão.
  • Comprar marcas sustentáveis/éticas (de preferência, portuguesas) : Bem, esta questão, do que faz, ou não, uma marca ser sustentável é muito complexa, por isso, vou apenas dar alguns critérios que usaria para decidir. Atenção, acreditar em sustentabilidade sem transparência pode ser um erro. Se uma marca se diz sustentável, mas não consegue explicar e “provar” porquê, há, grandes probabilidades, de ser só fantochada. Tem, também, em conta a dimensão da marca e as suas dificuldades, às vezes, ainda estão a caminhar para melhorar, mas estão altamente comprometidas em fazê-lo – apoiar estes projetos através das nossas compras, ainda que não estejam 100% de acordo com aquilo que consideramos ideal, pode ajudá-los a alcançar esse objetivo. Vamos aos critérios:
    • analisar o material usado nas roupas (é de fibras naturais ou artificiais, é reciclado ou virgem, é orgânico ou não, a produção desse material é longe ou perto, etc);
    • quem faz as roupas (a produção é nacional, europeia, fora da Europa, de que forma são tratadas as pessoas que fazem a roupa, a marca é transparente em relação a isso – se não for, há uma grande probabilidade de algo estar errado);
    • qual a viagem que faz a roupa até chegar até ti (para além da questão de onde vem próprio material, a peça pode fazer uma viagem enorme até chegar a vossa casa, tenta perguntar à marca por todo o processo, mas descobrir  isto não é muito fácil, na maioria dos casos);
    • o que fazer no fim de vida da peça (a marca responsabilizasse pela sua recolha, tem sistema de reciclagem própria, é uma peça compostável, etc);
    • analisar a marca como um todo (a sustentabilidade é um compromisso, ou tem apenas uma colecção “verde”- se tem apenas uma colecção dita sustentável, qual o motivo? porque fica bem e traz vendas, mas restantes peças da marca são “bussiness as usual” ou está a testar um novo modelo para transformar toda a marca. A marca apoia causas sociais e ambientais? se sim, o que faz, como faz. Há uma preocupação real ou é apenas para “anestesiar” a nossa consciência quando compramos, é solidariedade? ou apenas está a tentar resolver problemas criados pela sua própria atividade? Por exemplo, marcas que geram muitos resíduos e depois “gabam-se” de apoiar projetos de reciclagem, na verdade, estão apenas a tentar resolver os problemas por elas criadas, o que já é melhor do que nem isso fazer, mas não fazem nada de mais, aliás isso devia ser obrigatório!  

Se nenhuma destas alternativas for possível, optar por produtos feitos em Portugal e/ou comprar o mínimo possível. Se só comprarem 1 peça de roupa por ano, essa redução, por si só, já é revolucionária, mesmo que em lojas de fastfashion.

Existem alguns sites e apps que nos dão informações sobre várias marcas. De momento, ainda estou a aprender mais sobre eles e a perceber se vale a pena partilhar aqui (quais os mais fiáveis, se têm opções que existam em Portugal, etc). 

*upcycling consiste no reaproveitamento de materiais ou produtos que já não são úteis em materiais/produtos de igual ou superior qualidade. No caso da roupa, será, por exemplo, fazer novas calças de ganga aproveitando restos de ganga ou calças danificadas.

**Apenas a informação que é feito em Portugal, não é sinónimo de sustentabilidade. Mas, por ser mais próximo, pode ser mais fácil perceber em que condições é fabricado (quer em termos ambientais, quer em termos sociais). 

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