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O que é o Overtourism?

Tourist go home overtourism
ph: Spotted by locals

Como vou começar a viajar no próximo ano, decidi aprofundar, um pouco, os meus conhecimentos em relação a turismo responsável. No decorrer dessa pesquisa, deparei me com este termo Overtourism. E, pensei, hummmm, já ouvi falar disto… Deve ser excesso de turismo, mas será só isso? Afinal, o que é o Overtourism? É sobre isso que vou falar. O que é, alguns casos e algumas “soluções”. No fim, como habitual, vou deixar uma lista de conteúdos, para quem quiser saber mais.

Comecei a investigar por curiosidade. Mas, como não sou muito fã de sítios com muita gente, achei que não ia aprender, muitas coisas que fossem úteis para mim, enquanto turista. Achei eu, segura na minha ignorância, que já tinha uma boa noção do impacto do turismo. Aprofundei o tema mesmo só por curiosidade. Mal sabia eu, que isto me ia fazer refletir sobre várias coisas, em relação ao meu próprio comportamento, como visitante.

O que é o Overtourism?

O Overturism, como o nome indica, é o excesso de turistas. Mas não é APENAS o excesso de turistas. Pois, o excesso é relativo e não existe um número certo. Depende do local, da infra-estrutura, até dos próprios turistas e residentes. No entanto, há alguns sinais que podem denunciar casos de overtourism. Aqui, podemos incluir, entre outros sinais: perda de autenticidade do local; pressão sobre os recurso, levando a escassez para os habitantes (água, em algumas zonas, etc); substituição dos serviços e comercio para residentes por lojas para turistas (souveniers, tours, etc), aumento do preço e diminuição do número de casas para alugar, pois foram transformadas em alojamento turístico…..

De acordo com a maioria das definições, considera-se Overtourism quando o número de turistas afeta a qualidade de vida dos residente e/ou a experiência dos visitantes, de uma forma claramente negativa.

Podemos ainda considerar overtourism, quando o número de visitante afeta dramaticamente a vida selvagem.

Overtourism: algumas definições

UNWTO – o impacto do turismo num destino, ou em partes dele, que influencia excessivamente a qualidade de vida percebida pelos cidadãos e/ou a qualidade das experiências dos visitantes, de forma negativa. (tradução livre)

Original: the impact of tourism on a destination, or parts thereof, that excessively influences perceived quality of life of citizens and/or quality of visitors experiences in a negative way.

Harold Goodwin ( Diretor da Responsible Tourism Partnership, consultor e investigador na área de Turismo)- O overtourism descreve destinos onde os anfitriões ou convidados, locais ou visitantes, sentem que há muitos visitantes e que a qualidade de vida na área ou a qualidade da experiência, se deteriorou, de forma inaceitável. É o oposto de turismo responsável, que consiste em usar o turismo para criar lugares melhores para se viver e para se visitar. Frequentemente, tanto visitantes quanto hóspedes experimentam a deterioração simultaneamente e se revoltam contra ela. (tradução livre)

Original: Overtourism describes destinations where hosts or guests, locals or visitors, feel that there are too many visitors and that the quality of life in the area or the quality of the experience has deteriorated unacceptably. It is the opposite of responsible tou­ rism which is about using tourism to make better places to live in and better places to visit. Often both visitors and guests experience the deterioration concurrently and rebel against it.

Overtourism: Causas

Para compreendermos este conceito, mitigar as consequências e rever o planeamento, é preciso entender as causas. Contudo, temos de ter uma abordagem holistica. Nem todas as causas, podem ser aplicadas a todos os casos (fiz quase um trocadilho ahaha). Para além disso, algumas causas acabam por ser também consequências.

Há uma questão importante para perceber esta situação. Durante muitos anos, na industria do turismo, o sucesso era definido pelo número de turistas. Ou seja, quanto mais turistas recebesse, mais bem sucedido era um destino.

Recentemente, têm aparecido, cada vez mais vozes, em defesa do turismo de qualidade vs turismo de massas. Estudiosos e profissionais da área, defendem que, em locais saturados, mais turistas não significam mais dinheiro gasto na região. Pelo contrário, pode significar menos. Vê este video (a partir dos 7 minutos) que elucida bem esta teoria.

O Overtourism é a antítese do Turismo Responsável; é a consequência de prestar pouca atenção à sustentabilidade e pressupor que não há limites para o crescimento.(…)O overtourism é apenas um exemplo do que acontece quando mais e mais procuram consumir um recurso comum, particularmente, quando esse recurso é um recurso de propriedade comum finita, muitas as atrações são exatamente isso. Só um certo número de pessoas, pode ser colocado em Veneza ou nas Ramblas de Barcelona, há limites para o crescimento. (tradução livre)

Harold GoodWin, Abril 2019, em Overtourism: Causes, Symptoms and Treatment.

– Aumento da população e dos rendimentos + tendência para querer viajar

Com o aumento da população mundial e, especialmente, com o aumento dos rendimentos, a nível global, mais pessoas passaram a viajar (MUITAS mais lol). Hoje, viajar já não é apenas um hábito ocidental, nem exclusivo de classes com elevado poder económico.

– Viagens mais baratas

Não só as viagens de avião super baratas, mas também os bilhetes de autocarro e cruzeiros, a preços reduzidos ocupam lugar de destaque. Estes preços não refletem o impacto ambiental.

– Plataformas de economia partilhada

Plataformas como Airbnb, permitiram que existisse cada vez mais alojamento nas cidades. Alojamento esse, muitas vezes, isento de taxas, normas ou planeamento. Essas situações, na maioria dos sítios, levaram à redução do número de casas para alugar (para residentes) e aumento das rendas. Como consequência, muitas pessoas viram-se obrigadas a sair das suas cidades, por não conseguirem suportar as rendas. Ainda assim, não é não é justo dizer que o Airbnb (ou plataformas similares) foram por si só responsáveis pelo aumento de turistas nas cidades, em certos casos, o seu sucesso foi uma consequência.

– Aumento da eficiência dos transportes

Nos últimos anos, os transportes tornaram-se mais eficientes. É possível transportar mais pessoas por “unidade” de transporte. Também são mais rápidos e económicos.

– Os locais públicos são grátis e de todos

Todas as pessoas que queira ir visitar, por exemplo, a Rambla de Barcelona, pode fazê-lo sem pagar. Isso não trás retorno à cidade, nem aos residentes. Os custos daquela visita são suportados pela cidade (gestão do lixo, infra-estruturas) mesmo que não haja retorno. Daí, a importância das taxas municipais, para tentar colmatar esta situação.

– Sazonalidade

Há uma elevada concentração de pessoas, em alturas especificas. Imagina o Algarve em Agosto, cheio de pessoas, a exercerem uma pressão enorme, nos recursos. Se esses turistas forem distribuídos pelo ano todo, é mais dificil atingir o ponto de saturação.

No entanto, embora possa ser vantajoso diluir esta concentração, em alguns casos, não é. Por vezes, “fora de época” é a única altura em que os residentes podem usufrui dos locais. É preciso analisar caso a caso.

– Concentração nos mesmos locais

Embora este seja um problema que está (ou estava, no mundo pré-pandemia) a ocorrer por todo o mundo, há uma concentração. Podes ver este mapa para teres uma ideia, mais clara. Existe um conjunto de destinos onde “todas” as pessoas vão e depois outras áreas que estão “desertas”. Por exemplo, zonas que não tenham aeroporto relativamente perto, tendem a ter menos visitas. Também, dentro das próprias cidades, podem existir zonas saturadas e outras sem turistas.

Porém, é importante realçar que a dispersão, por si só, não é uma solução. Mais uma vez, é preciso haver planeamento. Caso contrário, corre-se o risco de acontecer como em várias cidades europeias, onde os residentes se queixam do aumento dos turistas, em áreas residenciais. Ou destinos em que o turismo cresceu tão rápido que as infra-estruturas não conseguiram acompanhar.

Para além do que foi dito, é importante relembrar que TODOS os destinos podem sofrer de overtourism, se não forem bem geridos. Redireccionar o turismo de “zonas overtourism” para outros locais, apenas está a atenuar o problema.

– Turismo como “motor da economia”

Na maioria dos destinos, há esta ideia que o turismo é essencial para a economia local/nacional. O que não é mentira, por si só. A questão é que, novamente, isto costuma estar aliado à ideia de aumento do número. Aumento do número do número de turistas, mais emprego. Aumento do número de postos de trabalho, melhor para a economia local.

Na verdade, é do conhecimento geral, que em sítios dominados pelo turismo de massas, a maioria dos empregos são precários, sazonais e mal remunerados. A juntar a isso, ainda grande parte dos lucros acabam por sair do pais, através das empresas internacionais proprietárias de cadeias de hotéis, restaurantes, etc. no local.

– Redes sociais, etc.

Recentemente, bem, não tão recentemente, mas… Ainda podemos juntar às causas anteriores, a explosão das redes sociais, criadores de conteúdo de viagens, etc. Alguns locais, tornam-se populares devido às partilhas na internet ou em guias de viagens. Sítios que de um ano para o outro, triplicam (ou mais) o número de visitantes, sem qualquer preparação.

Overtourism: alguns casos e medidas

A origem do termo overtourim apareceu antes, mas foi em 2017 que se tornou popular, devido ao surgimento de movimentos “anti-turistas”. Em vários locais, começaram a existir manifestações de residentes exigindo as “cidades de volta”. Tornou-se impossível viver em alguns destinos, tal a pressão exercida pelo turismo. Os exemplos mais mediáticos são Veneza e Barcelona. Vou exclui-los desta lista, pois podem ouvir falar deles nos documentários/artigos que deixarei abaixo.

  • Dubrovnik, Croácia. No final da guerra (que destruiu a cidade), todos estavam felizes com o crescimento de turistas. Mas, depois de servir de cenário para a série Guerra dos Tronos, os números tornaram-se incomportáveis. Um dos problemas da cidade está relacionado com o aumento de cruzeiros a pararem lá. Durante o tempo em que os passageiros visitam a cidade (umas horas), o espaço fica completamente lotado. Estive lá, em junho 2016, e confirmo. O número de pessoas era muito superior ao considerado “agradável” para visitar qualquer local.
  • Macchu Pichu, Peru. A popularidade desta atração aumentou tanto, nos últimos anos, que levou as autoridades locais a tomarem medidas. Atualmente, o número de visitantes é limitado. Mesmo para fazer o trilho, é preciso marcação/bilhete.
  • Cinque Terre, Itália. Para reduzir o número de visitantes, as autoridades, passaram a emitir bilhetes pagos para visitar a zona. O número de bilhetes emitido diariamente é limitado.
  • Boracay, Filipinas. Esta pequena ilha, um dos destinos mais procurados na Ásia, fechou em Fevereiro de 2018. A ilha foi fechada pelas autoridades para limpeza e para re-organização. Abriu, novamente, em Outubro do mesmo ano com uma estratégia sustentável para o turismo na ilha, sem a destruir.

Se pesquisares, vais encontrar MUITOS exemplos mesmo. Na Europa, a maioria das capitais estão a tentar lidar com este problema (incluindo, Lisboa). Não há soluções perfeitas e todos os destinos terão de se proteger, para evitar esta situação. O planeamento e a cooperação (entre operadores, residentes, governantes, etc) são fatores determinantes.

O que cada um pode fazer?

  • Evitar locais saturados, explorar locais menos conhecidos;
  • Respeitar os residentes, ter atenção à cultura dos locais que visitamos;
  • Gastar dinheiro no comércio local, evitar cadeias internacionais;
  • Privilegiar passeios a pé e de bicicleta, respeitando as regras locais e dando prioridade às pessoas que vivem lá (afinal, temos tempo, estamos de férias!);
  • Evitar a alta temporada, onde há uma grande concentração de pessoas (como expliquei antes, depende dos casos);

Bem, este artigo ficou maior do que queria. Mas, já que ia abordar este tema, achei por bem dar-te a fotografia toda (ou tentar). Espero que tenhas ficado a perceber o que é o overtourism. E, que não há propriamente uma solução. Todos vamos ter de aprender a lidar com isto, da melhor forma possível.

Como nota final, gostava de partilhar contigo algo que me inquietou, durante esta pesquisa. Numa das palestras que recomendo nas fontes, o orador Harold Goodwin, relembra que viajar por lazer (turismo), não é algo natural. Por isso, podemos sempre parar de fazê-lo. Como sôfrega por viagens, espero, honestamente, que consigamos transformar esta industria. Para que todos os que nunca tiveram oportunidade de viajar, possam vir a fazê-lo.

Tens interesse em turismo sustentável e viajar de forma mais responsável?Espreita aqui a secção sobre viagens do blog. É isso que ando a tentar fazer, viajar com menos impacto.

Fontes sobre ouvertourism:

Para ver:
Para ler:

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